sábado, janeiro 17, 2004

PRIMEIRO ADHYAYA - PRIMEIRO VALLI

1. Vagasravasa, desejoso (de recompensas celestiais), entregou (num sacrifício) tudo o que possuía. Ele tinha um filho de nome Nakiketas.
2. Quando os (prometidos) presentes estavam a ser entregues (aos sacerdotes), a fé entrou no coração de Nakiketas, que era ainda um rapaz, tendo então pensado:
3. ‘Não abençoados são, seguramente, os mundos para onde vão os homens por darem (como presente prometido num sacrifício) vacas que beberam água, comeram forragem, deram o seu leite, e são estéreis’.
4. (Sabendo que o seu pai prometera abdicar de tudo o que possuía e, portanto, também do seu filho) ele disse a seu pai: ‘Querido pai, a quem me ireis vós dar?’
Repetiu o mesmo uma segunda e terceira vez. Então o pai respondeu (zangado):
‘Dar-te-ei à Morte’.
(O pai, tendo feito esta afirmação uma vez, apesar de o ter feito de forma precipitada, tinha que honrar a sua palavra e sacrificar o filho).
5. O filho disse: ‘Eu vou e serei o primeiro entre muitos (que ainda terão que morrer); vou no meio de muitos (que estão agora a morrer). Qual será o trabalho que Yama (o soberano daqueles que partiram) terá que realizar relativamente a Mim?
6. ‘Olha para trás e vê como foi com os que vieram antes, olha para a frente e vê como será com os que vierem daqui em diante. Um mortal amadurece como o milho, como milho ele volta a nascer’
(Nakiketas entra no domicílio de Yama Vaivasvata, e não há ninguém para o receber. Assim, um dos assistentes de Yama deverá dizer):
7. ‘O fogo entra no interior das casas quando um Brahmana entra como hóspede. Esse fogo é extinto através da sua oferenda de paz; traz água, oh Vaivasvata!
8. ‘Um Brahmana que habita na casa de um homem tolo sem receber comida para se alimentar, destrói as suas esperanças e expectativas, as suas posses, a sua bondade, as suas sagradas e boas acções, e todos os seus filhos e gado.’
(Yama, ao regressar à sua casa depois de uma ausência de três noites em que Nakiketas não recebera qualquer hospitalidade da sua parte, diz):
9. ‘Oh Brahmana, como vós, um hóspede venerável, vivestes na minha casa três noites sem comer, escolhei então três dádivas. Saudações para vós! E saúde para mim!’
10. Nakiketas disse: Oh Morte, como primeira das três dádivas, eu escolho que Gautama, meu pai, seja pacificado, se torne bondoso e livre da raiva que me tem; e que ele possa conhecer-me e saudar-me, assim que me mandardes embora’.
11. Yama disse: ‘Através da minha influência, o vosso pai, Auddalaki Aruni, conhecer-vos-á, e será para convosco como era dantes. Ele dormirá pacificamente durante a noite, e livre da raiva, após ter-vos visto liberto da boca da morte’.
12. Nakiketas disse: ‘ No mundo celestial o medo não existe, vós não estais lá, oh Morte!, e ninguém tem medo da velhice. Abandonando tanto a raiva como a sede e estando fora do alcance da mágoa, todos se deleitam no mundo celestial.
13. Vós conheceis, oh Morte!, o fogo-sacrifício que nos conduz ao céu; dizei-mo pois eu estou pleno de fé. Aqueles que vivem no mundo celestial atingem a imortalidade – isto eu peço que seja a minha segunda dádiva’
14. Yama disse: Eu digo-vos, aprendei-o de mim, e quando vós perceberdes o fogo-sacrifício que conduz ao céu, então, oh!, Nakiketas, isso será o atingir dos mundos infindáveis, e do seu firme suporte, escondido em escuridão.’
15. Yama disse-lhe então o fogo-sacrifício, o início de todos os mundos, e que tijolos são necessários para o altar, e quantos, e como se devem colocar. E Nakiketas repetiu tudo tal como lhe fora dito. Então Mrityu, estando satisfeito com ele, disse de novo:
16. O abundante, estando satisfeito, disse-lhe:
Eu dou-vos agora outra dádiva; esse fogo-sacrifício tomará o vosso nome, tomai também esta corrente de muitas cores.’ Nakiketa
17. Aquele que realizou três vezes este rito de Nakiketa, e esteve unido com os três (pai, mãe e professor), e realizou os três deveres (estudo, sacrifício e dádiva de esmolas) conquista (ultrapassa) o nascimento e a morte. Quando ele tiver aprendido e compreendido este fogo, o qual conhece (ou faz-nos conhecer) tudo o que nasce de Brahman, que é venerável e divino, então obterá paz eterna.’
18. Aquele que conhece os três fogos de Nakiketa e, conhecendo os três, amontoa o sacrifício Nakiketa, esse, tendo primeiro atirado as correntes da morte, rejubila no mundo do céu, para além do alcance da dor.’
19. Este, oh Nakiketas, é o fogo que conduz ao céu, e que vós escolhestes como segunda dádiva. Esse fogo, todos os homens proclamarão. Escolhei agora, oh Nakiketas, a vossa terceira dádiva.’
20. Nakiketas disse: Há aquela dúvida, quando um homem morre – uns dizem que ele é, outros que não é. Eu gostaria de saber isto, ensinado por vós; este é o terceiro dos meus pedidos.’
21. A Morte disse: ‘Neste ponto até os deuses duvidaram inicialmente; não é fácil de compreender. Este é um assunto subtil. Escolhe outra dádiva, oh Nakiketas, não me pressiones, e não me faças esse pedido.’
22. Nakiketas disse: ‘Neste ponto até mesmo os deuses duvidaram , de facto, e vós, Morte, declaraste-lo como não sendo fácil de compreender, e outro professor como vós não se consegue encontrar – certamente nenhuma outra dádiva é como esta.’
23. A Morte disse: ‘Escolhei filhos e netos que vivam cem anos, manadas de gado, elefantes, ouro e cavalos. Escolhei o vasto domínio da Terra, e podereis viver durante tantas colheitas quantas quiserdes.’
24. ‘Se puderdes pensar em qualquer dádiva que seja igual a essa, escolhei riqueza material, e vida longa. Podereis ser (rei), oh Nakiketas, da vasta Terra. Eu farei de vós o desfrutador de todos os desejos.’
25. ‘Quaisquer desejos que sejam difíceis de atingir entre os mortais, pedi por eles à vontade – estas donzelas virgens com suas quadrigas e instrumentos musicais – e elas não são, na verdade, para serem obtidas pelo homem – podereis ser aguardado por elas, pois eu vo-las darei, mas não me perguntes sobre o morrer.’
26. Nakiketas disse: Estas coisas duram até amanhã, oh Morte, pois elas desgastam o vigor de todos os sentidos. Até a vida, na sua totalidade, é curta. Ficai com os vossos cavalos, ficai com a dança e a canção.’
27. Nenhum homem pode tornar-se feliz através da riqueza material. Possuiremos a riqueza, quando vos vemos? Viveremos tanto tempo quanto o tempo em que vós reinais? Só essa dádiva (que eu escolhi) pode ser escolhida por mim.’
28. ‘Que mortal, em lenta decadência aqui em baixo, e conhecendo, depois de se ter aproximado deles, a liberdade desfrutada pelos imortais face à decadência, se deleitaria numa vida longa, depois de ter ponderado nos prazeres que advêm da beleza e do amor?’
29. Não, aquilo sobre o qual existe esta dúvida, oh Morte, dizei-nos o que há nesse grande Além. Nakiketas não escolhe outra dádiva que não seja a que entra no mundo escondido.’



PRIMEIRO ADHYAYA - SEGUNDO VALLI

1. A Morte disse: ‘O bem é uma coisa, o que dá prazer, outra; estes dois, tendo objectos diferentes, acorrentam um homem. Está certo aquele que se agarra ao bem; aquele que escolhe o que dá prazer, falha o seu objectivo.’
2. ‘O bem e o que dá prazer acercam-se do homem: o sábio ao aproximar-se deles sabe distingui-los. Sim, o sábio prefere o bem ao que dá prazer, mas o tolo escolhe o que dá prazer através da ganância e da avareza.
3. ‘Vós, oh Nakiketas, depois de ponderardes sobre todos os prazeres que são ou parecem deliciosos, abstiveste-vos de todos eles. Não entrastes na estrada que conduzia à riqueza material, na qual morrem muitos homens.’
4. ‘Muito separados e conduzindo a pontos diferentes são estes dois, ignorância e o que é conhecido por sabedoria. Acredito que Nakiketas seja alguém que deseja o conhecimento, uma vez que mesmo muitos prazeres não vos dilacerarm.’
5. ‘Tolos residindo na escuridão, sábios aos seus próprios olhos, e inchados com conhecimento vão, andam às voltas, vacilando de um lado para o outro, como cegos conduzidos por cegos.’
6. ‘O Além nunca aparece aos olhos da criança descuidada, iludida pela ilusão da riqueza material. “Isto é o mundo”, pensa ele, ”não há outro”; e assim ele cai uma e outra vez sob o meu domínio.’
7. ‘Ele ( o Ser) do qual muitos não conseguem sequer ouvir falar, muitos, mesmo quando ouvem falar dele, não compreendem; maravilhoso é um homem que, quando encontrado, pode ensinar (o Ser); maravilhoso é aquele que o compreende, quando ensinado por um professor habilitado.’
8. ‘Esse (Ser), quando ensinado por um homem inferior, não é fácil de ser conhecido, mesmo quando ensinado muitas vezes; se não for ensinado por outro, não há maneira de o conseguir, pois que o que é mais pequeno que o pequeno é inconcebível.’
9. ‘Essa doutrina não pode ser obtida através de argumentação, mas quando é declarada por outra pessoa, então, oh amado, é fácil de compreender. Vós obtivestes esse conhecimento agora; vós sois verdadeiramente um homem verdadeiramente decidido. Que possamos ter sempre um inquiridor como vós.’
10. Nakiketas disse: ‘Eu sei que aquilo a que se chama tesouro é transitório, porque aquele eterno não é obtido através de coisas que não são eternas. Consequentemente, em primeiro lugar, o (fogo-sacrifício) de Nakiketas foi disposto por mim; então, através de coisas transitórias, obtive o que não é transitório (o ensinamento de Yama).’
11. Yama disse: embora tenhais obtido a satisfação de todos os desejos, a fundação do mundo, as infindáveis recompensas por boas acções, a praia onde não há medo, aquilo que é aumentado pelo louvor, a vasta morada, tudo o resto, no entanto, com sabedoria, vós livraste-vos de tudo com firme deterninação.’
12. ‘O sábio que, através da meditação no seu Ser, reconhece o Antigo, que é difícil de ver, que entrou na escuridão, que está escondido na gruta, que habita no abismo, como Deus, ele deixa de veras a alegria e a dor muito para trás.’
13. ‘Um mortal que ouviu isto e o abraçou, que separou disso todas as qualidades, e atingiu assim o subtil Ser, rejubila, porque obteve o que é causa de júbilo. A casa de (Brahman) está aberta, eu acredito, oh Nakiketas.’
14. Nakiketas disse: ‘Aquilo que vedes como não sendo isto ou aquilo, nem efeito nem causa, nem passado nem futuro, dizei-me isso.’
15. Yama disse: ‘Esse mundo (ou local) que todos os Vedas registam, que todas as penitências proclamam, que os homens desejam quando vivem como estudantes religiosos, esse mundo, eu digo-vos de forma breve, é OM.’
16. Essa (imperecível) sílaba significa Brahman, essa sílaba significa o Brahman mais alto; aquele que sabe essa sílaba, seja o que for que deseje, ele é.’
17. ‘Este é o melhor suporte, este é o suporte mais alto; aquele que conhece esse suporte é aumentado no mundo de Brahma.’
18. O conhecedor (Ser) não é nascido, não morre, não brotou de nada, nada brotou dele. O Antigo é não-nascido, eterno, duradouro; não é morto, embora o corpo esteja morto.’
19. ‘Se o assassino pensa que mata, se o assassinado pensa que é morto, eles não compreendem; porque o primeiro não mata nem o segundo é morto.’
20. ‘O Ser, mais pequeno que o pequeno, maior que o grande, está escondido no coração daquela criatura. Um homem que está livre dos desejos e livre do sofrimento, vê a majestade do Ser pela graça do Criador.’
21. ‘Embora sentado e quieto, ele anda até longe; embora deitado, vai a toda a parte. Quem, tirando eu, poderá conhecer esse Deus que rejubila e não rejubila?’
22. O sábio que conhece o Ser como não tendo corpo no interior do corpo, como imutável entre as coisas mutáveis, como grande e omnipresente, nunca sofre.’
23. ‘Esse Ser não pode ser ganho através do Veda, nem através da compreensão, nem por muito estudo. Aquele que o Ser escolhe, por ele o Ser pode ser ganho. O Ser escolhe-o a ele (o seu corpo) como seu.’
24. ‘Mas aquele que, em primeiro lugar, não se afastou da sua maldade, que não é tranquilo, e dominado, ou cuja mente não está em descanso, não poderá nunca obter o Ser (mesmo) através do conhecimento (intelectual).’
25. ‘Quem saberá então onde se encontra Ele para quem os Brahmanas e os Kshatriyas são (como se fossem) não mais que alimento, e a morte, ela própria, um condimento?’



PRIMEIRO ADHYAYA - TERCEIRO VALLI

1. Existem os dois, bebendo a sua recompensa no mundo das suas próprias obras, entrados no interior da gruta (do coração) habitando no mais alto pico ( o éter no coração). Aqueles que conhecem Brahman chamam-lhe sombra e luz; tal como os chefes de família que realizam o sacrifício de Trinakiketa.’
2. ‘Que possamos conseguir dominar aquele rito de Nakiketa que é uma ponte para os que o realizam; que é também o mais alto e imperecível Brahman para os que desejam atravessar a praia onde não existe o medo.’
3. ‘Conhece o Ser que está sentado na quadriga, em que o corpo é a quadriga, o intelecto (Budhi) é o condutor da quadriga, e a mente, as rédeas.’
4. ‘Os cavalos, diz-se que são os sentidos, os seus caminhos, os objectos dos sentidos. Quando ele (o mais alto Ser) está em união com o corpo, os sentidos, e a mente, então as pessoas sábias chama-lhe o Desfrutador.’
5. ‘Aquele que não tem entendimento e cuja mente (as rédeas) nunca está firmemente contida, os seus sentidos são ingovernáveis, como cavalos desgovernados de um condutor de quadriga.’
6. ‘Mas aquele que tem entendimento e cuja mente está sempre firmemente contida, os seus sentidos estão sob controlo, como bons cavalos de um condutor de quadriga.’
7. ‘Aquele que não tem entendimento, que é desatento e sempre impuro, nunca atinge esse lugar, mas entra no círculo dos nascimentos.’
8. ‘Mas aquele que tem entendimento, que está atento e é sempre puro, atinge de facto esse lugar, a partir do qual não será mais nascido.’
9. ‘Mas aquele que tem o entendimento do seu condutor de quadriga, e que segura as rédeas da mente, atinge o fim da sua jornada, e esse é o sítio mais alto de Vishnu.’
10. ‘Para além dos sentidos estão os objectos, para além dos objectos está a mente, para além da mente está o intelecto, o Grande Ser está para além do intelecto.’
11. Para além do Grande está o Não-desenvolvido, para além do Não-desenvolvido está a Pessoa (Purusha). Para além da pessoa não há nada, esta é a meta, a estrada mais alta.
12. ‘Aquele Ser está escondido em todos os seres e não brilha para fora de si mesmo, mas é visto por videntes subtis através do seu apurado e subtil intelecto.’
13. ‘Um homem sábio deveria manter baixos o seu discurso e mente; deveria mantê-los no interior do Ser que é conhecimento; ele deveria manter o conhecimento no interior do Ser que é Grande; e deveria mantê-lo (o Grande) no interior do Ser que é o Quieto.’
14. Levantai-vos, acordai! Uma vez que obtivestes as vossas dádivas, compreendei-as! O fio de uma lâmina afiada é difícil de atravessar; do mesmo modo os sábios dizem que o caminho para o Ser é difícil.
15. Aquele que percebeu aquilo que não tem som, não tem tacto, não tem forma, não tem decadência, não tem sabor, que é eterno, que não tem cheiro, que não tem início, que não tem fim, que está para além do Grande, e é imutável, é liberto das mandíbulas da morte.’
16. Um homem sábio que tenha repetido ou ouvido a história antiga de Nakiketa contada pela Morte, é aumentado no mundo de Brahman.’
17. ‘E aquele que repetir este enorme mistério numa assembleia de Brahmanes, ou, cheio de devoção, na altura do sacrifício de Sraddha, obtém por essa via grandes recompensas.’



SEGUNDO ADHYAYA - QUARTO VALLI

1. Disse a Morte: O Ser existente furou as aberturas (dos sentidos) para que eles se voltassem para fora: assim o homem olha para fora, não para trás, para o interior de si mesmo. Alguns homens sábios, no entanto, com os seus olhos fechados e desejando a imortalidade, viram o Ser atrás!’
2. ‘As crianças vão atrás dos prazeres exteriores, e caiem na armadilha que constitui a morte espalhada por toda a parte. Só os homens sábios, conhecendo a natureza do que é imortal, não procuram aqui nada estável, entre coisas instáveis!’
3. Aquilo através do qual conhecemos a forma, o gosto, o cheiro, os sons, e os toques amorosos, é aquilo através do qual conhecemos o que existe para além de tudo isso. Isto é isso (o que vós pedisteis).’
4. ‘O sábio, quando sabe que aquilo através do qual ele percebe todos os objectos durante o sono ou em vigília é o grande Ser omnipresente, deixa de sofrer.’
5. ‘Aquele que conhece esta alma viva que come mel (percebe os objectos) como sendo o Ser, sempre perto, o Senhor do passado e do futuro, daí em diante não teme mais. Isto é isso.’
6. ‘Aquele que conhece o que nasceu, no início, a partir do calor do ninho (pois ele nasceu antes da água), o que, entrando no coração, reside lá dentro, e foi percebido a partir dos elementos. Isto é isso.’
7. ‘(Aquele que conhece) também Aditi, que é um com todas as divindades, que chega com o Prana, (breath or Hiranyagarbha), o qual, entrando no coração, reside lá dentro, e nasceu dos elementos. Isto é isso.’
8. ‘Ali está Agni (fogo), o que tudo vê, escondido nos dois paus de fogo, bem guardado como uma criança (no útero) pela mãe, dia após dia, para ser adorado pelos homens quando eles acordam e trazem oblações. Isto é isso.’
9. ‘E aquilo donde se ergue o sol e para onde se dirige quando se põe, aí todos os Devas estão contidos, e ninguém vai para além. Isto é isso.’
10. ‘O que está aqui (visível no mundo), o mesmo está lá (invisível em Brahman); e o que está lá, o mesmo está aqui. Aquele que vê qualquer diferença aqui (entre Brahman e o mundo), vai de morte em morte.’
11. ‘Até pela mente este (Brahman) é para ser obtido e depois não qualquer diferença. Vai de morte em morte aquele que vê alguma diferença aqui.’
12. ‘A pessoa (Purusha), do tamanho de um caixão, permanece no meio do Ser, como senhor do passado e futuro, e, a partir daí, não teme mais. Isto é isso.’
13. Essa pessoa (Purusha), do tamanho de um caixão, é como uma luz sem fumo, senhora do passado e futuro, é a mesma hoje e amanhã. Isto é isso.’
14. ‘Como a água da chuva que caiu no cume de uma montanha escorre pelas rochas abaixo de todos os lados, assim faz aquele que vê uma diferença entre qualidades, que corre atrás delas por todos os lados.’
15. ‘Tal como a água pura deitada em água pura permanece a mesma, assim, oh Gautama, é o Ser de um pensador que sabe.’



SEGUNDO ADHYAYA - QUINTO VALLI

1. ‘Há uma cidade com onze portões que pertencem ao Não-nascido (Brahman), cujos pensamentos nunca são pervertidos. Aquele que se aproxima dela, não sofre mais, e, libertado (de todas as prisões da ignorância), torna-se livre. Isto é isso!’
2. ‘Ele (Brahman) é o cisne (sol) que habita no claro céu; ele é o Vasu (ar) que habita no céu; ele é o que oferece sacrifício (fogo) e habita no coração; ele é o hóspede (Soma) que habita no vaso sacrificial; ele habita nos homens, nos deuses (vara), no sacrifício (rita), no céu; ele nasce da água, na terra, no sacrifício (rita), nas montanhas; ele é o Verdadeiro e o Grande.’
3. Ele (Brahman) é quem envia a inspiração (prana) e quem devolve a expiração (apgma). Todos os Devas (sentidos) lhe prestam culto, o adorável (ou o anão), que está sentado no centro.’
4. ‘Quando esse (Brahman) incorporado, que habita no corpo, é retirado e liberto do corpo, que resta então? Isto é isso!’
5. Nenhum mortal vive por meio da respiração que sobe nem pela respiração que desce. Nós vivemos por meio de outra coisa, na qual estas duas repousam.’
6. Bem, oh Gautama, vou-vos dizer então este mistério, o velho Brahman, e o que acontece ao Ser, depois de atingir a morte.’
7. ‘Alguns entram no útero para adquirirem um corpo, como seres orgânicos, outros vão para a matéria inorgânica, de acordo com o trabalho de cada e com o conhecimento de cada.’
8. Ele, a Pessoa mais alta, que está acordada em nós enquanto dormimos, dando forma a belas visões que se sucedem uma à outra, que é, na verdade o Claro, que é Brahman, o único de quem se diz ser o Imortal. Nele todas as palavras estão contidas, e ninguém vai para além dele. Isto é isso.’
9. ‘Tal como o fogo único, depois de ter entrado no mundo, embora único, se torna diferente, de acordo com tudo aquilo que arde, assim o Ser único no interior de todas as coisas se torna diferente de acordo com aquilo em entra, e existe também sem isso.’
10. ‘Tal como o ar único, depois de ter entrado no mundo, embora único, se torna diferente de acordo com aquilo em que entra, também o Ser único no interior de todas as coisas se torna diferente de acordo com aquilo em entra, e existe também sem isso.’
11. ‘Tal como o sol, o olho de todo o mundo, não é contaminado pelas impurezas exteriores vistas pelos olhos, também o Ser único no interior de todas as coisas nunca é contaminado pela miséria do mundo, estando ele próprio sem ela.’
12. ‘Existe um senhor, o Ser no interior de todas as coisas, que torna a forma única em muitas. Os sábios que o percebem no interior do seu Ser, a eles pertence a liberdade eterna, não a outros.’
13. ‘Há um pensador eterno, que pensa pensamentos não-eternos, que, embora um, satisfaz os desejos de muitos. Os sábios que o percebem no interior do seu Ser, a eles pertence a paz eterna, não a outros.’
14. ‘Eles percebem aquele mais alto e indescritível prazer, dizendo, “Isto é isso”. Como, então, posso eu entendê-lo? Isso tem a sua própria luz, ou reflecte a luz?’
15. ‘Lá o sol não brilha, nem a lua ou as estrelas, nem estes relâmpagos, e muito menos este fogo. Quando ele brilha, tudo brilha com ele; com a sua luz tudo se acende.’



SEGUNDO ADHYAYA - SEXTO VALLI

1. ‘Há aquela velha árvore, cujas raízes crescem para cima e os ramos para baixo; a isso chama-se, na verdade, o Claro, a isso chama-se Brahman, só a isso se chama o Imortal. Todas as palavras estão contidas nisso, e ninguém vai para além disso. Isto é isso.’
2. ‘Tudo o que exista, o mundo inteiro, depois de ter ido em frente (a partir de Brahman), estremece no seu sopro. Esse Brahman é o grande terror, como uma espada desembainhada. Aqueles que sabem isto tornam-se imortais.’
3. ‘Do terror de Brahman queima o fogo, do terror queima o sol, do terror Indra e Vayu, e a Morte, os cinco, fogem.’
4. ‘Se um homem não conseguir perceber isso antes de ficar separado do seu corpo, então ele tem que levar o (ter um) corpo de novo nos mundos da criação.’
5. ‘Como num espelho, (Brahman poder ver-se claramente) aqui neste corpo; como num sonho, no mundo dos Pais; como na água, no mundo dos Gandharvas, ele é visto; como na luz e sombra, no mundo de Brahma.’
6. ‘Tendo percebido que os sentidos são distintos (do Atman), e que o seu surgir e desaparecer (o seu acordar e adormecer) pertence a eles mesmos na sua existência distinta (e não ao Atman), um homem sábio deixa de sofrer.’
7. ‘Para além dos sentidos na mente, para além da mente, está o Ser mais alto (criado), mais alto que esse Ser (criado) está o Grande Ser, mais alto que o Grande, o mais alto Não-manifestado.’
8. ‘Para além do Não-manifestado está a Pessoa, que tudo permeia e é totalmente imperceptível. Toda a criatura que a conhece é libertada, e obtém a imortalidade.’
9. ‘A sua forma não pode ser vista, ninguém a observa com os olhos. Ela é imaginada pelo coração, pela sabedoria, pela mente. Aqueles que sabem isto são imortais.’
10. ‘Quando os cinco instrumentos do conhecimento ficam quietos em conjunto com a mente, e quando o intelecto não se move, a isso é chamado o estado mais alto.’
11. ‘Isto, o firme reter dos sentidos, é o que se chama Yoga. Então, ele tem que estar livre do não pensar, pois o Yoga vai e vem.’
12. ‘Ele (o Ser) não pode ser alcançado por meio da fala, pela mente, ou pelos olhos. Como poderá ele ser apreendido a não ser por aquele que diz: ”Ele é”?’
13. ‘Pelas palavras “Ele é” deve ele ser apreendido, e também (admitindo) a realidade de ambos (o Brahman invisível e o mundo visível, como vindos de Brahman). Quando ele tiver sido apreendido pelas palavras “Ele é”, então a sua realidade revela-se a si mesma.’
14. ‘Quando todos os desejos que habitam no seu coração tiverem cessado, então o mortal torna-se imortal, e obtém Brahman.’
15. ‘Quando todas as ligações do coração forem rigorosamente dominadas aqui na terra, então o mortal torna-se imortal, aqui termina o ensinamento.’
16. ‘Há cento e uma artérias do coração, uma das quais penetra a coroa da cabeça. Movendo-se para cima através dela, um homem (na altura da morte) atinge o Imortal; as outras artérias servem para partir em diferentes direcções.’
17. ‘A Pessoa que não é maior do que um dedo polegar, o Ser interior, está sempre quieta no coração dos homens. Que um homem possa retirar esse Ser do seu corpo com firmeza, como se retira a medula de uma cana. Que ele conheça esse Ser como o Claro, como o Imortal; sim, como o Claro, como o Imortal.’
18. Tendo recebido este conhecimento da parte da Morte, e todo o domínio do Yoga (meditação), Nakiketa tornou-se livre das paixões e da morte, e obteve Brahman. E assim ficará também com outro que conhece o que diz respeito ao Ser.
19. Que Ele nos proteja a ambos! Que Ele nos desfrute a ambos! Que possamos adquirir força em conjunto! Que o nosso conhecimento se torne claro! Que nunca possamos discutir! Om! Paz! Paz! Harih, Om!